sexta-feira, 2 de junho de 2017

Hino À Dor - António Feijó


Sorri com mais doçura a boca de quem sofre, 
Embora amargue o fel que os seus lábios beberam; 
É mais ardente o olhar onde, como um aljofre, 
A Dor se condensou e as lágrimas correram. 

Soa, como se um beijo ou uma carícia fosse, 
A voz que a soluçar na Desgraça aprendeu; 
E não há para nós consolação mais doce 
Que o regaço de quem muito amou e sofreu. 

Voz, que jamais vibrou num soluço de mágoa, 
Ao nosso coração nunca pode chegar... 
Mas o pranto, ao cair duns olhos rasos de água, 
Torna mais penetrante e mais profundo o olhar. 

Lábio, que só bebeu na fonte da Alegria, 
É frio, como o olhar de quem nunca chorou; 
A Bondade é uma flor que se alimenta e cria 
Dos resíduos que a Dor no coração deixou. 

Em tudo quanto existe o Sofrimento imprime 
Uma augusta expressão... mesmo a Suprema Graça, 
Dando aos versos do Poeta esse esmalte sublime 
Que torna imorredoira a Inspiração que passa. 

É por isso que a Dor, sem trégua nem guarida, 
Dor sem resignação, Dor de estóico ou de santo, 
Só de a vermos passar no tumulto da Vida 
Deixa os olhos da gente enublados de pranto. 




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